04/08/2014 Valor Econômico

Article written by Tom Cardoso for Valor Econômico (in Portuguese).

Por Tom Cardoso | Para o Valor, de São Paulo

Considerado um dos principais duos de violão clássico do mundo, o Duo Assad, formado pelos irmãos Sérgio e Odair Assad, completa, em 2015, 50 anos de carreira, efeméride tão significativa que começou a ser celebrada antes, com uma grande turnê pelo Brasil. Depois de passar por cidades como Palmas (TO) e Manaus (AM), a dupla faz show amanhã em Dourados (MS) – a turnê encerra-se no domingo, com um recital no Teatro Municipal João Caetano, em Niterói (RJ). No ano que vem, os dois violonistas, que moram no exterior – Sérgio em San Francisco, nos EUA, e Odair em Bruxelas, na Bélgica -, voltam ao Brasil para retomar a turnê.

“Estamos muitos felizes em poder rodar o nosso país, por cidades tão diferentes, muitas sem a tradição de receber recitais”, diz Sérgio. “O nosso trabalho é eminentemente clássico e todo mundo sabe que nem sempre é possível conseguir patrocínio, ainda mais se tratando de Brasil”, diz Sérgio.

Radicados no exterior desde o início da década de 1980, elogiados pela crítica internacional pelo virtuosismo e, sobretudo, pela capacidade de dialogar – sempre com um pé na tradição – com diferentes matizes da música contemporânea, os dois violonistas, nascidos em Mococa (SP), podiam se tornar mais uma dupla de violonistas eruditos, como centenas pelo mundo. Mas no meio do caminho havia a música brasileira, o choro, o samba, o tropicalismo. O que explica o fato de o Duo Assad estar ligado artisticamente nestas últimas décadas, mesmo sendo, como diz Sérgio, um duo eminentemente clássico, a artistas tão díspares como Radamés Gnatalli, Yo-Yo Ma, Nikita Koshkin, Astor Piazzolla e Paquito D’Rivera.

“Quando fui, nos anos 70, estudar música na Universidade Federal do Rio de Janeiro, era visto como estranho pela maioria dos meus colegas, que não entendiam como um cara que buscava formação erudita podia ao mesmo tempo gostar de música popular brasileira, de Milton Nascimento e Caetano Veloso”, lembra Sérgio. “Havia uma postura de superioridade que eu abominava e continuo abominando.” A postura mais aberta, não elitista e sectária, é explicada na origem da dupla. Sérgio e Odair são filhos de músicos eruditos amadores, apaixonados por choro – o pai era fã incondicional de Jacob do Bandolim.

Aliás, quis o destino que o ídolo do pai fosse o primeiro a enxergar talento musical nos meninos, que ainda crianças, e começando a tocar violão, foram levados pelo pai para participar de ensaio no programa “Bossaudade”, da TV Record, apresentado por Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro e que durante anos recebeu nomes do samba e do choro. Jacob do Bandolim estava presente na noite de ensaio e, mesmo pouco dado a elogios, surpreendeu-se com a desenvoltura dos garotos. “O meu pai levou um gravador para registrar tudo”, diz Sérgio. “Tenho até hoje registrada a voz de Jacob falando para o meu pai: ‘Meu senhor, se eu tivesse filhos com esse talento eu não cumprimentava mais ninguém’.”

Mesmo com o elogio de Jacob, o pai só teve certeza do talento dos filhos quando foram apresentados, no Rio, à lendária violonista e professora argentina Monina Távora, discípula do espanhol Andrés Segovia, considerado o pai do violão erudito moderno. “A Monina, que havia sido professora do Duo Abreu [formado pelos irmãos Sérgio e Eduardo Abreu], foi bem direta com o meu pai: ‘Se os seus filhos não possuírem esse talento todo que você está dizendo, não vou perder tempo com eles. Se tiverem, dou aula de graça a eles’.”

No fim da primeira aula-teste, Monina deu o veredicto: “Eles ficam. Os dois têm potencial para virar concertistas”. Odair tornou-se um dos maiores virtuoses do violão clássico. “[Odair] virou logo de cara o solista da dupla e eu fiquei fazendo o segundo violão”, diz Sérgio. Por possuir menos técnica que o irmão, um gênio do instrumento, Sérgio tornou-se um compositor e arranjador do mesmo nível dos grandes da música erudita brasileira – não por acaso é o compositor mais tocado no exterior, no repertório de violão, atrás apenas de Heitor Villa-Lobos. Compôs arranjos tão sofisticados que criou um problema para si. “Tive que me esforçar para tocar os arranjos que compus para o Duo, que o meu irmão tira de letra”, diz Sérgio.